21.6.06
Sonhos

Sonhos...
Imagens fugitivas
flores esvoaçantes
emoções impalpáveis.
Rosa que amava Pedro, que amava o futebol.
O jogo acontecia na televisão e Pedro vivia cada gol como se ele fosse o artilheiro.
Artilheiro?
Rosa não sabia nem o que era isso.
Cuidava das crianças, arrumava a casa, lavava a roupa e todos os dias esperava João.
João era o marceneiro que por vezes vinha consertar alguma coisa na casa de Rosa.
Como eram doces os olhos de João.
Traziam promessas que Rosa não conseguia alcançar.
Pedro trazia o dinheiro que alimentava os filhos, que pagava a conta do supermercado.
João trazia sonhos.
Sonhos de cumplicidade.
Rosa fazia a marmita que Pedro levava para o trabalho.
João fazia a cômoda onde Rosa escondia seus segredos.
Pedro trazia correntes que aprisionavam Rosa na realidade.
João fabricava escaninhos, cantinhos de esperança.
Rosa produzia brigadeiros recheados de sensualidade.
Pedro se alimentava da doçura a outro endereçada.
Rosa preparava a cama onde Pedro se deitava.
Pedro dormia o sono do patrão que a empregava.
João roubava o sono, roubava a vida, usava o cotidiano como empreitada.
Pedro acordou do sonho e viu que Rosa não lhe agradava.
Rosa caiu da cama e viu-se só, despedaçada.
João pegou o cravo da lapela, vestiu-se de negro, homenageando a flor que entalhara.
mics
12:04 AM
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